O mundo continua uma merda, mas nós melhoramos

por Vera Iaconelli  ·  Newsletter Nem Toda Mulher  ·  Set 05, 2026

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Talvez uma vantagem da idade seja assumir o paradoxo: o mundo continua uma merda, mas muitas coisas melhoraram graças a nós.

Se o pé na bunda que levei do namorado aos 15 anos me pareceu o fim de tudo, aos 61 já aprendi que um dia vem depois do outro, e que um bofe vem depois do outro. Essa é uma coisa que a velhice me proporciona: enquanto acaba com o meu colágeno, coloca minhas experiências em perspectiva. O distanciamento, meio realista, meio otimista, me dá o gás de que preciso para encarar o dia, mesmo sabendo que o país mais poderoso do mundo é governado por um lunático misógino.

Continuo levantando com entusiasmo de manhã, provavelmente por levar uma vida bem confortável, mas não só. Tenho a incorrigível tendência de olhar para o copo cheio, também como forma de resistência. Considero isso uma necessidade minha: não vou fazer coro com gente que prega terra arrasada para, no final, vender o ar que respiramos.

Estou bem longe da cidadã de bem ou da boa pessoa — "Deus me livre da maldade de gente boa e da bondade de gente ruim", diz o poeta. O que me move é a indignação e a raiva, e no caminho vou encontrando um monte de gente que também usa sua raiva para algo melhor do que chutar cachorro, funcionários e filhos.


Vejo os vinte anos da Lei Maria da Penha a partir dessa perspectiva. Não estamos onde estávamos há duas décadas graças à luta dessa mulher. Tampouco ela chegaria onde chegou se não houvesse outras pessoas dispostas a lutar a seu lado. Para os jovens, com sangue no olho, os números de estupros, violências e feminicídios são sinal do fim dos tempos. (Concordo plenamente: uma sociedade que mata suas mulheres não sabe a que veio.)


Mas, para mim, que sou pré-#chegadefiufiu e pré-#MeToo, acompanhar as conquistas atuais traz uma perspectiva de transformação potente, cuja velocidade mal dou conta de seguir. Não estou sugerindo que uma coisa anule a outra: o quadro atual não deve encobrir a história que o precede, mas o inverso também não. O instantâneo me dá o sentido de urgência urgentíssima e a distância me permite continuar em busca de transformações.

Sou do tempo em que a mais óbvia das condições femininas — a menstruação — era um tabu. Lembro que mostrei para minha mãe que havia menstruado e ela me olhou como se eu tivesse feito algo errado. Mas também sou de agora, tempo no qual as mulheres falam abertamente sobre menopausa, orgasmos e tudo que nosso assombroso corpo produz.

Eu venho do passado e chego cada vez mais perto de hoje, de onde consigo ver alguns sinais promissores. Não só do lado das leis ou mesmo dos homens, mas, acima de tudo, do lado das mulheres.

Depois de décadas ouvindo mulheres emancipadas no espaço público, mas totalmente submetidas na vida privada, só posso dizer que mudanças de mentalidade são pequenas revoluções. Por isso, quando vejo tantas de nós reconhecendo que os casamentos são menos vantajosos para nós do que para os homens, reconheço um enorme passo de desalienação. Muitas já perceberam o engodo contido na ideia de que eles lhes fazem um enorme favor casando com elas. As pesquisas mostram: esposas adoecem enquanto seus maridos fazem carreira.

Reconhecemos que não precisamos dos homens para nada, inclusive para engravidar, uma vez que há bancos de esperma e sempre há aqueles ávidos por relações casuais. Aliás, a vida sem eles tem se mostrado mais fácil na medida em que somos exploradas na relação. (Quem achou seu unicórnio que o conserve!)

Outra ideia que vejo se consolidando é a valorização de tudo que até então era considerado pejorativamente coisa de mulherzinha: o cuidado, a intimidade, o afeto, a amizade feminina, o companheirismo, o coletivo. Menos sideradas pelo modelo masculino de poder, que inspirou parte das feministas dos anos 1980, exigimos que se leve em conta a família e os filhos. Não só como necessidade, mas como um valor ético a ser considerado. O fim da desumana escala 6x1, por exemplo, é uma das mudanças que requerem a transformação de mentalidades e que afetam diretamente a vida das mulheres (CESIT/Unicamp, "Vivo apenas para trabalhar"; DIEESE, "Boletim Especial 8 de Março de 2025").

Escutando e lendo mulheres periféricas, vejo que o trabalho remunerado, independentemente do marido provedor, passa a ser um valor para quase todas, dos mais diferentes espectros sociais, conservadoras ou não. Com nossas diferentes crenças e discursos, lutamos por equidade salarial, pelo direito aos estudos, pela carreira e pelo direito de proteger quem amamos e sermos protegidas.

A cada dia repenso meu valor e questiono abertamente a empáfia masculina, que é menos baseada nas qualidades pessoais dos homens do que em um direito da categoria. Trabalho árduo para quem foi criada para agradá-los.

Talvez uma vantagem da idade seja assumir o paradoxo de que o mundo continua uma merda, mas muitas coisas melhoraram graças a nós.

Parabéns, Maria da Penha, que usou sua raiva e indignação a favor da vida, como uma boa mulherzinha.