As mulheres do patriarcado? Por que algumas mulheres defendem o sistema que as oprime?

por Vera Iaconelli  ·  Newsletter Nem Toda Mulher  ·  Jun 30, 2026

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Se existe um governo ou chefia que poderia fazer jus à história das mulheres — feministas ou não —, esse deveria ser baseado na política do cuidado, da sororidade e que visa o coletivo.

Nada mais constrangedor para uma feminista do que dar de cara com uma mulher que defende o patriarcado. Misto de vergonha alheia e raiva, a situação é paradoxal. Quem tinha a pretensão de defender a vítima a encontra abraçada com o capeta fazendo juras de amor.

Mas é importante separar o joio do trigo, pois não se trata de um grupo homogêneo, claro. Muitas se identificam com o patriarcado, ou seja, com o sistema que faz crer que elas, sem os homens e filhos, estão condenadas à infelicidade, à incompletude ou a qualquer tipo de maldição correlata. Nesse balaio convivem tradwives e políticas ultraconservadoras com mulheres anônimas.

Convém separá-las: as duas primeiras fazem um misto de incongruência com má-fé. Ambas são arautos de uma dedicação ao lar e de uma subserviência ao marido que não cumprem. O tempo que despendem trabalhando no espaço público ou produzindo vídeos impecáveis para vender ideias e produtos não orna com a vida de rainha do lar que professam.

As governantes conservadoras, em especial, são um verdadeiro deboche à inteligência humana. Destilam ódio contra as feministas que lhes proporcionaram a condição de votar e ocupar cargos eletivos. Ao mesmo tempo, comungam com homens que defendem que mulheres não deveriam votar. Não se trata de burrice, claro, é o cinismo das que se acham assimiladas ao grupo dos homens, que se veem exceções entre as mulheres.

Dois exemplos vêm à mente: Serena Joy e Margaret Thatcher. A primeira é a personagem de "O Conto da Aia", de Margaret Atwood. Luta pela subserviência das mulheres, mas se supõe parte do grupo das escolhidas, aliadas dos homens, protegidas por eles. Não demora a descobrir seu erro, mas prefere dobrar a aposta do que admiti-lo e ter que pagar o preço da rebeldia. O ressentimento e a luta por poder as impedem de ter sororidade, pois estão identificadas com o ideário no qual competição e corporativismo andam de mãos dadas. Não há fomento à coletividade, pois nessa lógica todo macho alfa depende de um macho ou fêmea beta para se manter. Aceitam esse lugar para se tornarem a mulher alfa entre as mulheres betas. A questão racial também incide aí, na ascendência que brancas exercem sobre negras.

A segunda, Margaret Thatcher, é outra "fofa", se me entendem. Embora possamos usá-la de exemplo de mulher que alcançou o topo do poder, ela fez um grande desserviço ao seu gênero. Não chamou mulheres para governar ao seu lado por considerá-las incompetentes e por serem mulheres! Implementou uma política neoliberal desastrosa, sem o menor apreço pelo bem comum.

Margaret Thatcher

Se existe um governo ou chefia que poderia fazer jus à história das mulheres — feministas ou não —, esse deveria ser baseado na política do cuidado, da sororidade e que visa o coletivo. Qualquer coisa longe disso é uma ode ao que de pior a humanidade criou: individualismo, competição desenfreada e ameaça à espécie.


Do lado da mulher longe dos holofotes e da mercantilização de discursos nas redes (anti)sociais, a coisa é mais delicada. São séculos de doutrinação e ameaças promovidas pelo Estado, pela religião, pela escola, pela ciência e pela família para nos manter onde estamos.


Romper esse discurso requer redes de conscientização e de proteção. Conscientização para reconhecer quando está sob o jugo do "protetor" e proteção quando resolverem se libertar disso. Muitas das que são mortas e estupradas se negaram a atender as demandas dos homens em quem confiavam.

Se quisermos ajudá-las, temos que estar cientes de que repetem a lição que receberam e que, no mais das vezes, não imaginam um outro mundo no qual poderiam viver sem os homens mandando nelas.

Mas não só, em todos nós habita o desejo mais ou menos confesso de que haja um fiador da nossa existência. A ânsia por alguém que saiba e possa manter o céu sobre nossas cabeças é grande. Funciona como um antídoto falacioso contra a angústia humana diante do imponderável.

Muitos homens se arvoram neste lugar, pois se torna conveniente para eles e para outros acreditar nessa falsa garantia. Até que algo abale essa imagem e eles precisem restaurá-la. Muitos ataques de fúria masculina, desses que acabam em homicídio ou suicídio, decorrem desse momento no qual o narcisismo desses homens, fragilíssimo, se mostra ameaçado.

Assim também essas mulheres tentarão restaurar a imagem do seu homem depois de um ato de violência, na esperança de obter sua proteção e suas benesses imaginárias.

Temos que assumir a crítica de que mulheres também reproduzem o discurso machista pela simples razão de que se trata de um discurso e não uma prerrogativa de gênero. Se estamos à frente na discussão contra ele é porque somos suas grandes vítimas. Mas a crítica deve primeiro separar as mulheres identificadas com o patriarcado das cínicas oportunistas e depois reconhecer que a desconstrução desses discursos concerne a todas nós.