Quem pode pode

por Vera Iaconelli  ·  Newsletter Nem Toda Mulher  ·  Mai 17, 2026

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O movimento que é fruto do desejo de independência ou do abandono dos homens cria uma nova figura: a mulher que não precisa mais ser tutelada pelo marido e, portanto, não lhe deve obediência.

As mulheres estão chegando ao poder, mais devagar do que gostariam e o mundo precisaria, mas temos que admitir que algo mudou. Elas ainda assumem o dobro do trabalho doméstico comparado ao que fazem eles e, o que pouco se computa, são inteiramente responsabilizadas pela esfera de cuidado. Quer dizer, mesmo quando os homens dividem o cuidado com os filhos, elas são as gestoras desse cuidado, as responsáveis pelo resultado. Recebem menos na mesma função, penalizadas pelo tempo que dividem com a família e com o ciclo reprodutivo (incluindo aí: menstruação, abortos, gravidez, parto, puerpério, amamentação, menopausa). Raça, classe e território aprofundam essa desigualdade, embora ela se mantenha em todos os estratos.

Ainda assim, o avanço das mulheres no mercado de trabalho é assombroso, o que sempre me causa orgulho e admiração, afinal, realizar suas aspirações sem abandonar os seus requer mais do que força, exige ética. Necessidade e senso de justiça são motores que nunca devem ser subestimados. O movimento que é fruto do desejo de independência ou do abandono dos homens cria uma nova figura: a mulher que não precisa mais ser tutelada pelo marido e, portanto, não lhe deve obediência; a chefa de homens, a que ganha mais do que o companheiro. Sempre existiram exemplos dessas posições, mas eram exceções que confirmavam a regra. O que vemos hoje é um movimento consistente apontando nessa direção.

O efeito entre os casais é revelador. De um lado temos o fato de que quem ganha mais sempre pode usar isso para exercer seus podres poderes sobre o outro. De outro, temos que a dominação ainda define o lugar dos gêneros na estrutura e o uso ideológico das categorias homem e mulher. Dito de outra forma: nessa lógica, homem que não manda na mulher é beta, frouxo e corno.

Dá trabalho reconhecer que a masculinidade se fia nessa falsa ascendência sobre o feminino, obrigando a pensar se haveria outro fundamento para esse edifício que não fossem os ombros das mulheres.


Os casais heterossexuais têm patinado bastante nesse quesito, ao tentar acomodar as coisas rápido demais. Levará tempo para que as mulheres superem o ressentimento de terem se deixado iludir pela oferta de proteção dos homens — que nada mais era do que protegê-las deles mesmos.


Por outro lado, os homens cuja virilidade se baseia num misto de idealização das características femininas — bela, recatada e do lar — com menosprezo por considerá-las subalternas estão tendo que rebolar para vê-las de outro ângulo. Porque ao dividir o poder com elas, precisam se perguntar, afinal, qual sua parte nesse latifúndio.

O que se espera delas: que não deixem o ressentimento azedar sua vida, lembrando que esse é um afeto carregado de autocondenação por terem consentido na trama que as oprimiu. Espera-se também que não produzam mais do mesmo, usando o machismo como modelo. Acrescentaria que é de bom tom evitar usar o outro de desculpa para nossos limites e más escolhas, truque conhecido nas relações amorosas.

Dos homens espera-se, primeiramente, a devida ressaca moral. A dolorosa sensação de ficha caindo, o gosto amargo de ter que escutar algo inédito na própria biografia: você não é a última bolacha do pacote, não porque seja menos, mas por ser igual aos seus pares. Enfrentar o medo de que terá que arcar com os anos de controle travestido de proteção, de tutela que cobra gratidão e obediência. Terá que escutar cada hábito e palavra que trai essa opressão — o bestiário das microviolências de gênero — até que esses maneirismos se tornem estranhos à relação. Terá que romper a broderagem que lhe serve de escudo no momento mesmo em que ela parece mais necessária para incensar um narcisismo sob ataque. Enfim, terá que ser muito mais homem do que jamais imaginou ter sido.